segunda-feira, 10 de maio de 2021

ENTREVISTA COM S.E.R. DOM INÁCIO LUCAS, CONCEDIDA À CEM

 

Entrevista  com Dom Inácio Lucas, Bispo de Gurúè

conduzida por Marcolino Vilanculos, Secretário das Comunicações da CEM

 

1.    Dom Lucas, quando e onde nasce a vocação sacerdotal?

Agradeço a CEM e ao secretário das comunicações por esta conversa sobre a minha vocação sacerdotal. Tudo começou entre os anos de 1985 a 1987, quando eu era aluno da Escola Industrial de Carapira, em Monapo, província de Nampula. Naquela altura não era permitido ir à Igreja mas um pequeno grupo de alunos (rapazes e meninas), às noites de sábado ou domingo, frequentávamos a catequese e encontro do grupo dos jovens da nova geração. A direcção da Escola não permitia aos alunos frequentar à casa dos padres para fins religiosos nem ir à celebração dominical da palavra de Deus. Era durante a catequese clandestina que os padres combonianos e as irmãs combonianas nos falavam das vocações para diferentes profissões. Também nos falavam da vocação para a vida consagrada e religiosa. Como nos diziam: este país também precisa de jovens corajosos que se oferecem para anunciar Jesus Cristo aos seus irmãos tornando-se padres ou irmãs...

2.    De uma forma resumida pode nos contar como foi a sua experiência sacerdotal tendo em conta que assumiu vários cargos e trabalhou na Arquidiocese de Maputo e Diocese de Nacala?

Eu sou sacerdote diocesano de Nacala, isto é, ordenado sacerdote e incardinado na diocese de Nacala, em obediência ao Bispo de Nacala. Mas durante 10 anos estive a trabalhar nos dois Seminários Maiores de Filosofia e Teologia em Maputo, em obediência ao bispo de Nacala. Não fiz pedido nem concurso para trabalhar na arquidiocese de Maputo. Sendo necessário aos sábados e domingos ia colaborar nas paróquias, sem prejuízo da minha principal tarefa de servir a tempo inteiro no Seminário.

Dom Inácio Lucas

3.    Dom Lucas, como é que recebeu a notícia da sua nomeação para bispo da Diocese de Gurúè?

Do fundo do coração confesso que esta nomeação para o ministério episcopal foi para mim uma surpresa, repito, uma grande surpresa. Durante vinte e três (23) anos de sacerdócio prestei à Igreja de Moçambique os serviços que me tinham confiado. Fi-los com simplicidade e sem orgulho de inteligência nem desejo de obter reconhecimento de honra e mérito. Não fiz competição com ninguém nem ardi de inveja a ninguém. Aliás, a minha vida é surpresa do dia a dia … estudar até tornar-se sacerdote, adquirir grau académico de nível superior, ser professor e prefeito de estudos, receber a nomeação de Vigário paroquial para a Sé Catedral de Nacala, ser reitor de um Seminário Pontifício e até ser bispo, são as etapas da minha vida que me vieram como surpresa. Ainda mais esta nomeação para bispo de Gurúè é surpresa!

4.    Antes de ser nomeado pelo Santo Padre Papa Francisco como 3º Bispo da Diocese de Gurúè ocupou o cargo de Vigário Geral da Diocese de Nacala, como foi a vivência pastoral auxiliando a S. Ex.cia Rev.ma Dom Alberto Vera Aréjula no cuidado pastoral daquela diocese localizada na zona norte do nosso país?

A Diocese de Nacala é nova comparando com a maioria das dioceses do país. S. Ex.cia Rev.ma D. Germano Grachane nomeou-me para Vigário Geral da Diocese mas tendo passado à reforma, a S. Ex.cia Rev.ma D. Alberto Vera Aréjula decidiu manter-me no cargo. Por ironia de destino em Nacala fui o 3º Vigário Geral da recente história da diocese e o 3º Bispo da diocese de Gurúè. Trabalhei bem com os dois bispos e minha principal tarefa foi ajudar e facilitar ao bispo para tomar decisões acertadas para a comunhão e a unidade diocesana.

5.    Dom Lucas foi nomeado num momento atípico, em que o mundo e o nosso país é assolado com a pandemia do novo coronavírus. Quais serão as principais linhas pastorais a executar para que não falte a palavra de Deus ao santo povo de Deus de Gurúè e também tendo em conta que a Igreja em Moçambique se prepara para realizar IV Assembleia Nacional de Pastoral?

A diocese de Gurúè tem 42 mil km², tem muitos cristãos católicos e não católicos; vivem metade dos habitantes da província da Zambézia. Como linha pastoral penso visitar as equipas missionárias das paróquias, reunir com os padres, as irmãs e o conselho pastoral de cada paróquia. Tal como fizeram os bispos antecessores, considero importante conhecer a realidade de cada região pastoral e desenhar o plano pastoral das necessidades. É prematuro determinar as linhas pastorais antes de conhecer e reunir os padres diocesanos, os missionários e os conselhos paroquiais. De toda a maneira é tarefa do bispo dar assistência e animar os padres que são os principais colaboradores na missão. Depois disso pode-se começar a incentivar o serviço de pastoral de conjunto com todas as forças vivas da diocese. É minha intenção fomentar um clima de aproximação às pessoas e em conjunto traçar as linhas de acção na missão.

6.    Que experiência leva para Gurúè, tendo em conta que antes de sua nomeação, já ocupou vários cargos a nível da Igreja como Reitor do Seminário de S. Pio X, Vigário geral da Diocese de Nacala e entre outros.

Os anteriores cargos e os contextos são diferentes mas penso que o grau da responsabilidade aumenta para bem servir as pessoas. Não há regras antecipadas de experiência sobretudo quando se trata de lidar com pessoas de âmbitos diferentes. As tarefas e as responsabilidades adquiridas anteriormente podem ser elemento fundamental para começar uma nova missão mas há sempre novidades. Não penso inventar novas regras ou planos programáticos. Os serviços realizados no passado podem ajudar mas acredito que o mais importante é ser humilde e aprender no dia a dia com os padres, os missionários e os animadores das comunidades cristãs de Gurúè. É verdade que sou bispo deles mas gostaria de trabalhar com eles num clima de mútua confiança e honesta transparência. 

7.    Após a sagração e tomada de posse em ambiente restrito, Dom Lucas pensa em visitar as Paróquias quando retomarem as Missas para que o santo povo de Gurúè conheça o seu novo pastor e também para conhecer a realidade vivida em cada Paróquia da Diocese?

Dom Manuel, Dom Alberto e Dom Inácio

Obviamente é minha responsabilidade visitar as paróquias e conhecer a realidade da nossa diocese. Tenho certeza que esta fase de confinamento por causa do coronavírus vai passar e os cristãos desejam celebrar Missa com o seu novo pastor. Depois de ultrapassarmos esta situação de calamidade pública e abrirem os locais de culto, iremos retomar a catequese das crianças, jovens e adultos mas também iremos nos reunir para a celebração da palavra e da eucaristia nas comunidades cristãs.

 

8.    Com a eclosão do coronavírus e com o confinamento e sem missas públicas, alguns cristãos sentiram retraídos, desistindo de rezar, apesar das Paróquias envidarem esforços para transmissões on-line das missas e partilha da liturgia diária e entre outras iniciativas pastorais, qual é a mensagem a deixar para estes fiéis que em algum momento consideram que tudo acabou?

Apesar disto tudo de confinamento, eu acredito que o povo cristão está a rezar em família e pequenos grupos de vizinhos e está a espera ansiosamente para celebração comunitária da fé. Há sinais de esperança de que num futuro próximo os cristãos vão voltar a reunir-se para professar a fé. Não se sabe quando termina esta pandemia e por mais que dure no tempo, é mau pensar que os fiéis consideram que tudo acabou… há sempre espaço de esperança. É preciso pensar e agir positivo. É verdade que todos nós fomos apanhados desprevenidos com a COVID 19 e as medidas de confinamento para prevenção mas os cristãos alimentaram sempre a esperança de voltar às celebrações e encontros de catequese nas igrejas paroquiais e comunidades cristãs.

 

9.    Alguma coisa que gostaria de sublinhar que não foi arrolada durante a entrevista?

Dom Inácio Lucas
Sim ... Quero dizer que o bispo, os padres, as religiosas e todo o povo do Gurúè temos a esperança de retomarmos as acções de culto e outras práticas da fé. Enquanto continua a vigorar o estado de calamidade pública, as boas iniciativas de caridade aos mais desfavorecidos e aos deslocados não podemos faltar a assistência para aliviar o sofrimento deles. Também é importante fomentar entre nós a comunhão e a unidade na nossa Igreja diocesana. É preciso não se deixar cair ao desânimo nem individual ou colectivo. Através de boas práticas da caridade fraterna podemos dar o testemunho da encarnação de Cristo, princípio da humanidade reconciliada com Deus.  

 



10. Para finalizarmos e ao mesmo tempo agradecer-lhe por ter-nos concedido esta entrevista, qual é a mensagem que gostaria de deixar para os fiéis da diocese de Gurúè?

A todos o povo da diocese de Gurúè rezo para que possamos caminhar unidos para Jesus Cristo, nosso único salvador. Aos fiéis de Gurúè, católicos e não católicos, padres e religiosas dedico o lema da minha vida consagrada e espero ter cada dia a alegria de implementar quer nos bons tempos ou menos bons: «não tenho ouro nem prata, mas dou-te o que tenho – em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda». Isto tem significado para a minha consagração a Deus e a Igreja. Desça sobre a força do Espírito Santo e cada um de vós receba a bênção apostólica

A todos desejo-vos Feliz Páscoa.

De vosso,

+ Inácio Lucas

Bispo de Gurúè

sexta-feira, 7 de maio de 2021

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 107º DIA MUNDIAL DO MIGRANTE E DO REFUGIADO

 

«Rumo a um nós cada vez maior»

 

Queridos irmãos e irmãs!

Na carta encíclica Fratelli tutti, deixei expressa uma preocupação e um desejo, que continuo a considerar importantes: «Passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta. No fim, oxalá já não existam “os outros”, mas apenas um “nós”» (n. 35).

Por isso pensei dedicar a mensagem para o 107º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado ao tema «Rumo a um nós cada vez maior», pretendendo assim indicar claramente um horizonte para o nosso caminho comum neste mundo.

A história do «nós»

Este horizonte encontra-se no próprio projeto criador de Deus: «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. Abençoando-os, Deus disse-lhes: “Crescei, multiplicai-vos”» (Gn 1, 27-28). Deus criou-nos homem e mulher, seres diferentes e complementares para formarem, juntos, um nós destinado a tornar-se cada vez maior com a multiplicação das gerações. Deus criou-nos à sua imagem, à imagem do seu Ser Uno e Trino, comunhão na diversidade.

E quando o ser humano, por causa da sua desobediência, se afastou d’Ele, Deus, na sua misericórdia, quis oferecer um caminho de reconciliação, não a indivíduos isoladamente, mas a um povo, um nós destinado a incluir toda a família humana, todos os povos: «Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus» (Ap 21, 3).

Assim, a história da salvação vê um nós no princípio e um nós no fim e, no centro, o mistério de Cristo, morto e ressuscitado «para que todos sejam um só» (Jo 17, 21). Mas o tempo presente mostra-nos que o nós querido por Deus está dilacerado e dividido, ferido e desfigurado. E isto verifica-se sobretudo nos momentos de maior crise, como agora com a pandemia. Os nacionalismos fechados e agressivos (cf. Fratelli tutti, 11) e o individualismo radical (cf. ibid., 105) desagregam ou dividem o nós, tanto no mundo como dentro da Igreja. E o preço mais alto é pago por aqueles que mais facilmente se podem tornar os outros: os estrangeiros, os migrantes, os marginalizados, que habitam as periferias existenciais.

Na realidade, estamos todos no mesmo barco e somos chamados a empenhar-nos para que não existam mais muros que nos separam, nem existam mais os outros, mas só um nós, do tamanho da humanidade inteira. Por isso aproveito a ocasião deste Dia Mundial para lançar um duplo apelo a caminharmos juntos rumo a um nós cada vez maior, dirigindo-me em primeiro lugar aos fiéis católicos e depois a todos os homens e mulheres da terra.

Uma Igreja cada vez mais católica

Para os membros da Igreja Católica, este apelo traduz-se num esforço por se configurarem cada vez mais fielmente ao seu ser de católicos, tornando realidade aquilo que São Paulo recomendava à comunidade de Éfeso: «Um só corpo e um só espírito, assim como a vossa vocação vos chama a uma só esperança; um só Senhor, uma só fé, um só batismo» (Ef 4, 4-5).

De facto, a catolicidade da Igreja, a sua universalidade é uma realidade que requer ser acolhida e vivida em cada época, conforme a vontade e a graça do Senhor que prometeu estar sempre connosco até ao fim dos tempos (cf. Mt 28, 20). O seu Espírito torna-nos capazes de abraçar a todos para se fazer comunhão na diversidade, harmonizando as diferenças sem nunca impor uma uniformidade que despersonaliza. No encontro com a diversidade dos estrangeiros, dos migrantes, dos refugiados e no diálogo intercultural que daí pode brotar, é-nos dada a oportunidade de crescer como Igreja, enriquecer-nos mutuamente. Com efeito, todo o batizado, onde quer que se encontre, é membro de pleno direito da comunidade eclesial local e membro da única Igreja, habitante na única casa, componente da única família.

Os fiéis católicos são chamados, cada qual a partir da comunidade onde vive, a comprometer-se para que a Igreja se torne cada vez mais inclusiva, dando continuidade à missão que Jesus Cristo confiou aos Apóstolos: «Pelo caminho, proclamai que o Reino do Céu está perto. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 7-8).

Hoje, a Igreja é chamada a sair pelas estradas das periferias existenciais para cuidar de quem está ferido e procurar quem anda extraviado, sem preconceitos nem medo, sem proselitismo, mas pronta a ampliar a sua tenda para acolher a todos. Entre os habitantes das periferias existenciais, encontraremos muitos migrantes e refugiados, deslocados e vítimas de tráfico humano, aos quais o Senhor deseja que seja manifestado o seu amor e anunciada a sua salvação. «Os fluxos migratórios contemporâneos constituem uma nova “fronteira” missionária, uma ocasião privilegiada para anunciar Jesus Cristo e o seu Evangelho sem se mover do próprio ambiente, para testemunhar concretamente a fé cristã na caridade e no respeito profundo pelas outras expressões religiosas. O encontro com migrantes e refugiados de outras confissões e religiões é um terreno fecundo para o desenvolvimento de um diálogo ecuménico e inter-religioso sincero e enriquecedor» (Papa Francisco, Discurso aos Diretores Nacionais da Pastoral dos Migrantes, 22/IX/2017).

Um mundo cada vez mais inclusivo

A todos os homens e mulheres da terra, apelo a caminharem juntos rumo a um nós cada vez maior, a recomporem a família humana, a fim de construirmos em conjunto o nosso futuro de justiça e paz, tendo o cuidado de ninguém ficar excluído.

O futuro das nossas sociedades é um futuro «a cores», enriquecido pela diversidade e as relações interculturais. Por isso, hoje, devemos aprender a viver, juntos, em harmonia e paz. Encanta-me duma forma particular aquele quadro que descreve, no dia do «batismo» da Igreja no Pentecostes, as pessoas de Jerusalém que escutam o anúncio da salvação logo após a descida do Espírito Santo: «Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus» (At 2, 9-11).

É o ideal da nova Jerusalém (cf. Is 60; Ap 21, 3), onde todos os povos se encontram unidos, em paz e concórdia, celebrando a bondade de Deus e as maravilhas da criação. Mas, para alcançar este ideal, devemos todos empenhar-nos por derrubar os muros que nos separam e construir pontes que favoreçam a cultura do encontro, cientes da profunda interconexão que existe entre nós. Nesta perspetiva, as migrações contemporâneas oferecem-nos a oportunidade de superar os nossos medos para nos deixarmos enriquecer pela diversidade do dom de cada um. Então, se quisermos, poderemos transformar as fronteiras em lugares privilegiados de encontro, onde possa florescer o milagre de um nós cada vez maior.

A todos os homens e mulheres da terra, peço que empreguem bem os dons que o Senhor nos confiou para conservar e tornar ainda mais bela a sua criação. «Um homem nobre partiu para uma região longínqua, a fim de tomar posse de um reino e em seguida voltar. Chamando dez dos seus servos, entregou-lhes dez minas e disse-lhes: “Fazei render a mina até que eu volte”» (Lc 19, 12-13). O Senhor pedir-nos-á contas das nossas obras! Mas, para assegurar o justo cuidado à nossa Casa comum, devemos constituir-nos num nós cada vez maior, cada vez mais corresponsável, na forte convicção de que todo o bem feito ao mundo é feito às gerações presentes e futuras. Trata-se dum compromisso pessoal e coletivo, que se ocupa de todos os irmãos e irmãs que continuarão a sofrer enquanto procuramos realizar um desenvolvimento mais sustentável, equilibrado e inclusivo. Um compromisso que não faz distinção entre autóctones e estrangeiros, entre residentes e hóspedes, porque se trata dum tesouro comum, de cujo cuidado e de cujos benefícios ninguém deve ficar excluído.

O sonho tem início

O profeta Joel preanunciava o futuro messiânico como um tempo de sonhos e visões inspirados pelo Espírito: «Derramarei o meu espírito sobre toda a humanidade. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões» (3, 1). Somos chamados a sonhar juntos. Não devemos ter medo de sonhar e de o fazermos juntos como uma única humanidade, como companheiros da mesma viagem, como filhos e filhas desta mesma terra que é a nossa Casa comum, todos irmãs e irmãos (cf. Fratelli tutti, 8).

Oração

Pai santo e amado,
o vosso Filho Jesus ensinou-nos
que nos Céus se esparge uma grande alegria
quando alguém que estava perdido
é reencontrado,
quando alguém que estava excluído, rejeitado ou descartado
é reinserido no nosso nós,
que assim se torna cada vez maior.

Pedimo-Vos que concedais a todos os discípulos de Jesus
e a todas as pessoas de boa vontade
a graça de cumprirem a vossa vontade no mundo.
Abençoai todo o gesto de acolhimento e assistência
que repõe a pessoa que estiver em exílio
no nós da comunidade e da Igreja,
para que a nossa terra possa tornar-se,
tal como Vós a criastes,
a Casa comum de todos os irmãos e irmãs. Amen.

Roma, em São João de Latrão, na Festa dos Apóstolos São Filipe e São Tiago, 3 de maio de 2021.

Francisco

segunda-feira, 3 de maio de 2021

ACTIVIDADES PROGRAMADAS PARA O MÊS DE MAIO NO CALENDÁRIO DIOCESANO

 

Maio: Mês Mariano

01 – São José, Operário

Convívio de padres, consagrados e missionário/as

 

08-09 – Mualama e Muliquela

Peregrinação

 

16 – Paróquias

Solenidade da Ascensão do Senhor

 

22 – Diocese

27º Aniversário da Ordenação episcopal de D. Manuel Chuanguira Machado

 

23 – Paróquias

Pentecostes – Renovação e envio de animadores

 

29 – Gilé

Votos Perpétuos do Ir. Eliseu Caetano, Missionário Claretiano

30 – Paróquias / Gilé

Santíssima Trindade – Ofertório especial: CEM

Ordenação Diaconal do Ir. Eliseu Caetano, Missionário Claretiano

31 - Gurúè

Encerramento do Mês Mariano - Santinha

CRÓNICAS DA ÚLTIMA SEMANA

 28.04.2021 - Sua Excelência Reverendíssima Dom Inácio Lucas, Bispo da nossa Diocese, regressou à sede Diocese, depois de alguns dias em Maputo para assuntos vários da Diocese, terminada a I Sessão Plenária da CEM.

30.04.2021 - Às nove horas, no Salão da Cúria Diocesana de Gurúè, Dom Inácio Lucas,  encontrou-se com o clero diocesano. Tratou-se de um encontro de partilha e reflexão do caminho que somos convidados a fazer como Igreja, em comunhão com o nosso Pastor. participaram neste encontro, 22 padres Diocesanos e 3 Diáconos.

Às 15.00 H do mesmo dia (30.04.2021), Dom Inácio Lucas encontrou-se com a equipa da Coordenação da CIRMO de Gurúè. Neste encontro, Dom Inácio Lucas acolheu e manifestou a sua total abertura em acolher as iniciativas da CIRMO no Gurúè, com o objectivo único de edificarmos a Igreja que se encontra no Gurúè. Por seu turno, a Irmã Maria Imaculada de Oliveira, das Missionárias Claretianas e coordenadora do Grupo, manifestou em nome da CIRMO, a disponibilidade de colaborar com a Diocese, nas várias tarefas que forem necessárias.

Às 17.30 horas do mesmo dia (30.04.2021), Sua Excelência Reverendíssima Dom Inácio Lucas, presidiu a Missa de abertura oficial do académico e formativo no Seminário Propedêutico S. José de Gurúè. Na sua homilia, partindo da Mensagem do Papa para o 58º Dia Mundial de oração pelas Vocações, Dom Inácio falou do sonho, do serviço e da fidelidade, elementos incontornáveis para a realização de uma vocação na Igreja. Convidou aos presentes a ler, reler, e meditar a Mensagem do Papa Francisco.

01.05.2021- Por ocasião da celebração dos 150 anos da Fundação da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, Sua Excelência Reverendíssima Dom Inácio Lucas, presidiu na Paróquia da Imaculada Conceição de Invinha, uma Celebração eucarística alusiva à efeméride acima. Na sua homilia, Dom Inácio agradeceu o trabalho desenvolvido pelas Irmãs Franciscanas Hospitaleiras no mundo em geral e na nossa Diocese em particular e pediu aos presentes, a colherem lições de vida e doação com o serviço que as Irmãs prestam à Igreja e ao Mundo.

02.05.2021 - Sua Excelência Reverendíssima Dom Inácio Lucas, presidiu a II Missa na Paróquia de São Bernardo, uma das 3 Paróquias sub-urbanas da Vila Municipal de Gurúè.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

DECLARAÇÃO DOS BISPOS CATÓLICOS DE MOÇAMBIQUE

 




MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 58º DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES [25 de Abril de 2021 - IV Domingo da Páscoa]

«São José: o sonho da vocação»

 

Queridos irmãos e irmãs!

No dia 8 de Dezembro passado, teve início o Ano especial dedicado a São José, por ocasião do 150º aniversário da declaração dele como Padroeiro da Igreja universal (cf. Decreto da Penitenciaria Apostólica, 8 de Dezembro de 2020). Da parte minha, escrevi a carta apostólica Patris corde, com o objetivo de «aumentar o amor por este grande Santo» (concl.). Trata-se realmente duma figura extraordinária e, ao mesmo tempo, «tão próxima da condição humana de cada um de nós» (introd.). São José não sobressaía, não estava dotado de particulares carismas, não se apresentava especial aos olhos de quem se cruzava com ele. Não era famoso, nem se fazia notar: dele, os Evangelhos não transcrevem uma palavra sequer. Contudo, através da sua vida normal, realizou algo de extraordinário aos olhos de Deus.

Deus vê o coração (cf. 1 Sam 16, 7) e, em São José, reconheceu um coração de pai, capaz de dar e gerar vida no dia a dia. É isto mesmo que as vocações tendem a fazer: gerar e regenerar vidas todos os dias. O Senhor deseja moldar corações de pais, corações de mães: corações abertos, capazes de grandes ímpetos, generosos na doação, compassivos para consolar as angústias e firmes para fortalecer as esperanças. Disto mesmo têm necessidade o sacerdócio e a vida consagrada, particularmente nos dias de hoje, nestes tempos marcados por fragilidades e tribulações devidas também à pandemia que tem suscitado incertezas e medos sobre o futuro e o próprio sentido da vida. São José vem em nossa ajuda com a sua mansidão, como Santo ao pé da porta; simultaneamente pode, com o seu forte testemunho, guiar-nos no caminho.

A vida de São José sugere-nos três palavras-chave para a vocação de cada um. A primeira é sonho. Todos sonham realizar-se na vida. E é justo nutrir aspirações grandes, expectativas altas, que objetivos efémeros como o sucesso, a riqueza e a diversão não conseguem satisfazer. Realmente, se pedíssemos às pessoas para traduzirem numa só palavra o sonho da sua vida, não seria difícil imaginar a resposta: «amor». É o amor que dá sentido à vida, porque revela o seu mistério. Pois só se tem a vida que se , só se possui de verdade a vida que se doa plenamente. A este propósito, muito nos tem a dizer São José, pois, através dos sonhos que Deus lhe inspirou, fez da sua existência um dom.

Os Evangelhos falam de quatro sonhos (cf. Mt 1, 20; 2, 13.19.22). Apesar de serem chamadas divinas, não eram fáceis de acolher. Depois de cada um dos sonhos, José teve de alterar os seus planos e entrar em jogo para executar os misteriosos projetos de Deus, sacrificando os próprios. Confiou plenamente. Podemos perguntar-nos: «Que era um sonho noturno, para o seguir com tanta confiança?» Por mais atenção que se lhe pudesse prestar na antiguidade, valia sempre muito pouco quando comparado com a realidade concreta da vida. Todavia São José deixou-se guiar decididamente pelos sonhos. Porquê? Porque o seu coração estava orientado para Deus, estava já predisposto para Ele. Para o seu vigilante «ouvido interior» era suficiente um pequeno sinal para reconhecer a voz divina. O mesmo se passa com a nossa vocação: Deus não gosta de Se revelar de forma espetacular, forçando a nossa liberdade. Transmite-nos os seus projetos com mansidão; não nos ofusca com visões esplendorosas, mas dirige-Se delicadamente à nossa interioridade, entrando no nosso íntimo e falando-nos através dos nossos pensamentos e sentimentos. E assim nos propõe, como fez com São José, metas elevadas e surpreendentes.

Na realidade, os sonhos introduziram José em aventuras que nunca teria imaginado. O primeiro perturbou o seu noivado, mas tornou-o pai do Messias; o segundo fê-lo fugir para o Egito, mas salvou a vida da sua família. Depois do terceiro, que ordenava o regresso à pátria, vem o quarto que o levou a mudar os planos, fazendo-o seguir para Nazaré, onde precisamente Jesus havia de começar o anúncio do Reino de Deus. Por conseguinte, em todos estes transtornos, revelou-se vitoriosa a coragem de seguir a vontade de Deus. Assim acontece na vocação: a chamada divina impele sempre a sair, a dar-se, a ir mais além. Não há fé sem risco. Só abandonando-se confiadamente à graça, deixando de lado os próprios programas e comodidades, é que se diz verdadeiramente «sim» a Deus. E cada «sim» produz fruto, porque adere a um desígnio maior, do qual entrevemos apenas alguns detalhes, mas que o Artista divino conhece e desenvolve para fazer de cada vida uma obra-prima. Neste sentido, São José constitui um ícone exemplar do acolhimento dos projetos de Deus. Trata-se, porém, de um acolhimento ativo, nunca de abdicação nem capitulação; ele «não é um homem resignado passivamente. O seu protagonismo é corajoso e forte» (Carta ap. Patris corde, 4). Que ele ajude a todos, sobretudo aos jovens em discernimento, a realizar os sonhos que Deus tem para cada um; inspire a corajosa intrepidez de dizer «sim» ao Senhor, que sempre surpreende e nunca desilude!

Uma segunda palavra marca o itinerário de São José e da vocação: serviço. Dos Evangelhos, resulta como ele viveu em tudo para os outros e nunca para si mesmo. O Povo santo de Deus chama-lhe castíssimo esposo, desvendando assim a sua capacidade de amar sem nada reservar para si próprio. Libertando o amor de qualquer posse, abriu-se realmente a um serviço ainda mais fecundo: o seu cuidado amoroso atravessou as gerações, a sua custódia solícita tornou-o patrono da Igreja. Ele que soube encarnar o sentido oblativo da vida, é também patrono da boa-morte. Contudo o seu serviço e os seus sacrifícios só foram possíveis, porque sustentados por um amor maior: «Toda a verdadeira vocação nasce do dom de si mesmo, que é a maturação do simples sacrifício. Mesmo no sacerdócio e na vida consagrada, requer-se este género de maturidade. Quando uma vocação matrimonial, celibatária ou virginal não chega à maturação do dom de si mesmo, detendo-se apenas na lógica do sacrifício, então, em vez de significar a beleza e a alegria do amor, corre o risco de exprimir infelicidade, tristeza e frustração» (Ibid., 7).

O serviço, expressão concreta do dom de si mesmo, não foi para São José apenas um alto ideal, mas tornou-se regra da vida diária. Empenhou-se para encontrar e adaptar um alojamento onde Jesus pudesse nascer; prodigalizou-se para O defender da fúria de Herodes, apressando-se a organizar a viagem para o Egito; voltou rapidamente a Jerusalém à procura de Jesus que tinham perdido; sustentou a família trabalhando, mesmo em terra estrangeira. Em resumo, adaptou-se às várias circunstâncias com a atitude de quem não desanima se a vida não lhe corre como queria: com a disponibilidade de quem vive para servir. Com este espírito, José empreendeu as viagens numerosas e muitas vezes imprevistas da vida: de Nazaré a Belém para o recenseamento, em seguida para Egito, depois para Nazaré e, anualmente, a Jerusalém, sempre pronto a enfrentar novas circunstâncias, sem se lamentar do que sucedia, mas disponível para dar uma mão a fim de reajustar as situações. Pode-se dizer que foi a mão estendida do Pai Celeste para o seu Filho na terra. Assim não pode deixar de ser modelo para todas as vocações, que a isto mesmo são chamadas: ser as mãos operosas do Pai em prol dos seus filhos e filhas.

Por isso gosto de pensar em São José, guardião de Jesus e da Igreja, como guardião das vocações. Com efeito, da própria disponibilidade em servir, deriva o seu cuidado em guardar. «Levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe» (Mt 2, 14): refere o Evangelho, indicando a sua disponibilidade e dedicação à família. Não perdeu tempo a cismar sobre o que estava errado, para não o subtrair a quem lhe estava confiado. Este cuidado atento e solícito é o sinal duma vocação realizada. É o testemunho duma vida tocada pelo amor de Deus. Que belo exemplo de vida cristã oferecemos quando não seguimos obstinadamente as nossas ambições nem nos deixamos paralisar pelas nossas nostalgias, mas cuidamos de quanto nos confia o Senhor, por meio da Igreja! Então Deus derrama o seu Espírito, a sua criatividade sobre nós; e realiza maravilhas, como em José.

Além da chamada de Deus – que realiza os nossos sonhos maiores – e da nossa resposta – que se concretiza no serviço pronto e no cuidado carinhoso –, há um terceiro aspeto que atravessa a vida de São José e a vocação cristã, cadenciando o seu dia a dia: a fidelidade. José é o «homem justo» (Mt 1, 19) que, no trabalho silencioso de cada dia, persevera na adesão a Deus e aos seus desígnios. Num momento particularmente difícil, detém-se «a pensar» em tudo (cf. Mt 1, 20). Medita, pondera: não se deixa dominar pela pressa, não cede à tentação de tomar decisões precipitadas, não segue o instinto nem se cinge àquele instante. Tudo repassa com paciência. Sabe que a existência se constrói apenas sobre uma contínua adesão às grandes opções. Isto corresponde à laboriosidade calma e constante com que desempenhou a profissão humilde de carpinteiro (cf. Mt 13, 55), pela qual inspirou, não as crónicas da época, mas a vida quotidiana de cada pai, cada trabalhador, cada cristão ao longo dos séculos. Porque a vocação, como a vida, só amadurece através da fidelidade de cada dia.

Como se alimenta esta fidelidade? À luz da fidelidade de Deus. As primeiras palavras recebidas em sonho por São José foram o convite a não ter medo, porque Deus é fiel às suas promessas: «José, filho de David, não temas» (Mt 1, 20). Não temas: são estas as palavras que o Senhor dirige também a ti, querida irmã, e a ti, querido irmão, quando, por entre incertezas e hesitações, sentes como inadiável o desejo de Lhe doar a vida. São as palavras que te repete quando no lugar onde estás, talvez no meio de dificuldades e incompreensões, te esforças por seguir diariamente a sua vontade. São as palavras que descobres quando, ao longo do itinerário da chamada, retornas ao primeiro amor. São as palavras que, como um refrão, acompanham quem diz sim a Deus com a vida como São José: na fidelidade de cada dia.

Esta fidelidade é o segredo da alegria. Como diz um hino litúrgico, na casa de Nazaré reinava «uma alegria cristalina». Era a alegria diária e transparente da simplicidade, a alegria que sente quem guarda o que conta: a proximidade fiel a Deus e ao próximo. Como seria belo se a mesma atmosfera simples e radiosa, sóbria e esperançosa, permeasse os nossos seminários, os nossos institutos religiosos, as nossas residências paroquiais! É a alegria que vos desejo a vós, irmãos e irmãs que generosamente fizestes de Deus o sonho da vida, para O servir nos irmãos e irmãs que vos estão confiados, através duma fidelidade que em si mesma já é testemunho, numa época marcada por escolhas passageiras e emoções que desaparecem sem gerar a alegria. São José, guardião das vocações, vos acompanhe com coração de pai!

Roma, São João de Latrão, 19 de Março de 2021, Solenidade de São José

 

                                                                         Francisco 

Fonte: www.vatican.va