Entrevista com Dom Inácio Lucas, Bispo de Gurúè
conduzida por Marcolino Vilanculos, Secretário das Comunicações da CEM
1.
Dom Lucas, quando e onde nasce a vocação sacerdotal?
Agradeço
a CEM e ao secretário das comunicações por esta conversa sobre a minha vocação
sacerdotal. Tudo começou entre os anos de 1985 a 1987, quando eu era aluno da
Escola Industrial de Carapira, em Monapo, província de Nampula. Naquela altura
não era permitido ir à Igreja mas um pequeno grupo de alunos (rapazes e meninas), às noites de sábado
ou domingo, frequentávamos a catequese e encontro do grupo dos jovens da nova
geração. A direcção da Escola não permitia aos alunos frequentar à casa dos
padres para fins religiosos nem ir à celebração dominical da palavra de Deus. Era
durante a catequese clandestina que os padres combonianos e as irmãs combonianas
nos falavam das vocações para diferentes profissões. Também nos falavam da
vocação para a vida consagrada e religiosa. Como nos diziam: este país também
precisa de jovens corajosos que se oferecem para anunciar Jesus Cristo aos seus
irmãos tornando-se padres ou irmãs...
2.
De uma forma resumida pode nos contar como foi a sua
experiência sacerdotal tendo em conta que assumiu vários cargos e trabalhou na
Arquidiocese de Maputo e Diocese de Nacala?
Eu sou
sacerdote diocesano de Nacala, isto é, ordenado sacerdote e incardinado na
diocese de Nacala, em obediência ao Bispo de Nacala. Mas durante 10 anos estive
a trabalhar nos dois Seminários Maiores de Filosofia e Teologia em Maputo, em
obediência ao bispo de Nacala. Não fiz pedido nem concurso para trabalhar na
arquidiocese de Maputo. Sendo necessário aos sábados e domingos ia colaborar
nas paróquias, sem prejuízo da minha principal tarefa de servir a tempo inteiro
no Seminário.
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Dom Inácio Lucas |
3.
Dom Lucas, como é que recebeu a notícia da sua nomeação para
bispo da Diocese de Gurúè?
Do fundo do
coração confesso que esta nomeação para o ministério episcopal foi para mim uma
surpresa, repito, uma grande surpresa. Durante vinte e três (23) anos de
sacerdócio prestei à Igreja de Moçambique os serviços que me tinham confiado.
Fi-los com simplicidade e sem orgulho de inteligência nem desejo de obter
reconhecimento de honra e mérito. Não fiz competição com ninguém nem ardi de inveja
a ninguém. Aliás, a minha vida é surpresa do dia a dia … estudar até tornar-se
sacerdote, adquirir grau académico de nível superior, ser professor e prefeito
de estudos, receber a nomeação de Vigário paroquial para a Sé Catedral de
Nacala, ser reitor de um Seminário Pontifício e até ser bispo, são as etapas da
minha vida que me vieram como surpresa. Ainda mais esta nomeação para bispo de
Gurúè é surpresa!
4.
Antes de ser nomeado pelo Santo Padre Papa Francisco como 3º
Bispo da Diocese de Gurúè ocupou o cargo de Vigário Geral da Diocese de Nacala,
como foi a vivência pastoral auxiliando a S. Ex.cia Rev.ma Dom Alberto Vera Aréjula
no cuidado pastoral daquela diocese localizada na zona norte do nosso país?
A Diocese
de Nacala é nova comparando com a maioria das dioceses do país. S. Ex.cia
Rev.ma D. Germano Grachane nomeou-me para Vigário Geral da Diocese mas tendo
passado à reforma, a S. Ex.cia Rev.ma D. Alberto Vera Aréjula decidiu manter-me
no cargo. Por ironia de destino em Nacala fui o 3º Vigário Geral da recente história
da diocese e o 3º Bispo da diocese de Gurúè. Trabalhei bem com os dois bispos e
minha principal tarefa foi ajudar e facilitar ao bispo para tomar decisões acertadas
para a comunhão e a unidade diocesana.
5.
Dom Lucas foi nomeado num momento atípico, em que o mundo e
o nosso país é assolado com a pandemia do novo coronavírus. Quais serão as
principais linhas pastorais a executar para que não falte a palavra de Deus ao
santo povo de Deus de Gurúè e também tendo em conta que a Igreja em Moçambique
se prepara para realizar IV Assembleia Nacional de Pastoral?
A
diocese de Gurúè tem 42 mil km², tem muitos cristãos católicos e não católicos;
vivem metade dos habitantes da província da Zambézia. Como linha pastoral penso
visitar as equipas missionárias das paróquias, reunir com os padres, as irmãs e
o conselho pastoral de cada paróquia. Tal como fizeram os bispos antecessores,
considero importante conhecer a realidade de cada região pastoral e desenhar o
plano pastoral das necessidades. É prematuro determinar as linhas pastorais
antes de conhecer e reunir os padres diocesanos, os missionários e os conselhos
paroquiais. De toda a maneira é tarefa do bispo dar assistência e animar os
padres que são os principais colaboradores na missão. Depois disso pode-se
começar a incentivar o serviço de pastoral de conjunto com todas as forças
vivas da diocese. É minha intenção fomentar um clima de aproximação às pessoas
e em conjunto traçar as linhas de acção na missão.
6.
Que experiência leva para Gurúè, tendo em conta que antes de
sua nomeação, já ocupou vários cargos a nível da Igreja como Reitor do Seminário
de S. Pio X, Vigário geral da Diocese de Nacala e entre outros.
Os
anteriores cargos e os contextos são diferentes mas penso que o grau da
responsabilidade aumenta para bem servir as pessoas. Não há regras antecipadas
de experiência sobretudo quando se trata de lidar com pessoas de âmbitos
diferentes. As tarefas e as responsabilidades adquiridas anteriormente podem
ser elemento fundamental para começar uma nova missão mas há sempre novidades.
Não penso inventar novas regras ou planos programáticos. Os serviços realizados
no passado podem ajudar mas acredito que o mais importante é ser humilde e
aprender no dia a dia com os padres, os missionários e os animadores das
comunidades cristãs de Gurúè. É verdade que sou bispo deles mas gostaria de
trabalhar com eles num clima de mútua confiança e honesta transparência.
7.
Após a sagração e tomada de posse em ambiente restrito, Dom
Lucas pensa em visitar as Paróquias quando retomarem as Missas para que o santo
povo de Gurúè conheça o seu novo pastor e também para conhecer a realidade
vivida em cada Paróquia da Diocese?
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Dom Manuel, Dom Alberto e Dom Inácio |
Obviamente
é minha responsabilidade visitar as paróquias e conhecer a realidade da nossa
diocese. Tenho certeza que esta fase de confinamento por causa do coronavírus vai passar e os cristãos
desejam celebrar Missa com o seu novo pastor. Depois de ultrapassarmos esta
situação de calamidade pública e abrirem os locais de culto, iremos retomar a
catequese das crianças, jovens e adultos mas também iremos nos reunir para a
celebração da palavra e da eucaristia nas comunidades cristãs.
8.
Com a eclosão do coronavírus e com o confinamento e sem
missas públicas, alguns cristãos sentiram retraídos, desistindo de rezar,
apesar das Paróquias envidarem esforços para transmissões on-line das missas e
partilha da liturgia diária e entre outras iniciativas pastorais, qual é a
mensagem a deixar para estes fiéis que em algum momento consideram que tudo
acabou?
Apesar
disto tudo de confinamento, eu acredito que o povo cristão está a rezar em
família e pequenos grupos de vizinhos e está a espera ansiosamente para
celebração comunitária da fé. Há sinais de esperança de que num futuro próximo
os cristãos vão voltar a reunir-se para professar a fé. Não se sabe quando
termina esta pandemia e por mais que dure no tempo, é mau pensar que os fiéis
consideram que tudo acabou… há sempre espaço de esperança. É preciso pensar e
agir positivo. É verdade que todos nós fomos apanhados desprevenidos com a
COVID 19 e as medidas de confinamento para prevenção mas os cristãos
alimentaram sempre a esperança de voltar às celebrações e encontros de
catequese nas igrejas paroquiais e comunidades cristãs.
9.
Alguma coisa que gostaria de sublinhar que não foi arrolada
durante a entrevista?
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Dom Inácio Lucas |
Sim ...
Quero dizer que o bispo, os padres, as religiosas e todo o povo do Gurúè temos a
esperança de retomarmos as acções de culto e outras práticas da fé. Enquanto
continua a vigorar o estado de calamidade pública, as boas iniciativas de
caridade aos mais desfavorecidos e aos deslocados não podemos faltar a
assistência para aliviar o sofrimento deles. Também é importante fomentar entre
nós a comunhão e a unidade na nossa Igreja diocesana. É preciso não se deixar
cair ao desânimo nem individual ou colectivo. Através de boas práticas da
caridade fraterna podemos dar o testemunho da encarnação de Cristo, princípio da
humanidade reconciliada com Deus.
10.
Para finalizarmos e ao mesmo tempo agradecer-lhe por ter-nos
concedido esta entrevista, qual é a mensagem que gostaria de deixar para os
fiéis da diocese de Gurúè?
A todos o
povo da diocese de Gurúè rezo para que possamos caminhar unidos para Jesus
Cristo, nosso único salvador. Aos fiéis de Gurúè, católicos e não católicos, padres
e religiosas dedico o lema da minha vida consagrada e espero ter cada dia a
alegria de implementar quer nos bons tempos ou menos bons: «não tenho ouro nem prata, mas dou-te o que tenho
– em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda». Isto tem
significado para a minha consagração a Deus e a Igreja. Desça sobre a força do
Espírito Santo e cada um de vós receba a bênção apostólica
A todos
desejo-vos Feliz Páscoa.
De vosso,
+ Inácio
Lucas
Bispo de
Gurúè